Durante muitos anos, falar sobre transformação digital significava convencer empresas de que era necessário investir em tecnologia.
Esse cenário mudou.
Hoje, praticamente toda empresa depende de tecnologia para vender, atender, produzir, faturar, comunicar, armazenar informações e tomar decisões.
O novo desafio não é mais provar que tecnologia é importante.
O desafio é outro:
Como investir melhor, integrar melhor e transformar tecnologia em resultado real para o negócio?
Essa mudança já aparece nos números do mercado brasileiro.
Segundo o estudo Mercado Brasileiro de Software – Panorama e Tendências 2026, da ABES em parceria com a IDC, o mercado brasileiro de TI movimentou US$ 67,8 bilhões em 2025, crescimento de 18,5% em relação a 2024. Para 2026, porém, a projeção é de crescimento mais moderado, de 5,3%, em um ambiente no qual os investimentos passam a ser mais seletivos e orientados a produtividade, otimização de custos e impacto no negócio.
Para mim, esse é um dos sinais mais importantes do momento atual.
O mercado não está deixando de investir em tecnologia. Está começando a exigir mais retorno dela.
A fase da tecnologia pela tecnologia está terminando
É comum observar movimentos empresariais que seguem tendências.
Primeiro foi a digitalização.
Depois vieram:
cloud;
mobilidade;
trabalho remoto;
cibersegurança;
automação;
inteligência artificial.
Todas essas tecnologias podem gerar ganhos importantes.
Mas nenhuma delas, isoladamente, garante resultado.
Uma empresa pode migrar tudo para a nuvem e aumentar seus custos.
Pode contratar ferramentas de segurança e continuar vulnerável.
Pode implantar inteligência artificial e não melhorar nenhum processo.
Pode comprar equipamentos modernos e manter usuários improdutivos.
Pode contratar vários fornecedores especializados e continuar sem saber quem é responsável quando ocorre uma falha.
A questão central deixou de ser:
“Qual tecnologia devemos adotar?”
E passou a ser:
“Qual problema precisamos resolver?”
Essa diferença parece pequena.
Na prática, muda completamente a qualidade das decisões.
O empresário está ficando mais criterioso
Os números apresentados pela ABES e IDC apontam justamente nessa direção.
O mercado brasileiro entra em uma etapa mais madura, na qual empresas buscam retorno concreto, integração entre tecnologias e maior racionalização dos custos.
Isso significa que o fornecedor de tecnologia também precisa mudar.
Não basta mais vender:
computadores;
servidores;
licenças;
firewall;
cloud;
links;
softwares.
O cliente precisa compreender:
por que está contratando;
qual risco será reduzido;
qual processo será melhorado;
quanto custará manter a solução;
quem será responsável por ela;
como o resultado será medido.
Esse movimento favorece empresas de tecnologia que conseguem sair da venda pontual e assumir uma postura consultiva.
O mercado continuará crescendo. Mas o dinheiro será mais disputado.
A Brasscom projeta que o Brasil possa realizar até R$ 2 trilhões em investimentos em tecnologias entre 2026 e 2029.
Nuvem e inteligência artificial aparecem como os principais vetores desse movimento, com investimentos projetados de R$ 765,6 bilhões e R$ 736,6 bilhões, respectivamente.
É um volume expressivo.
Mas existe algo mais importante do que o tamanho desses números:
cada vez mais empresas terão de decidir onde não investir.
Recursos financeiros são limitados.
Recursos humanos também.
Tempo de implantação é limitado.
A capacidade de absorção das equipes é limitada.
Por isso, priorização será uma competência cada vez mais importante.
Tecnologia não pode mais ser administrada como uma lista de desejos.
Ela precisa ser tratada como portfólio de investimentos.
Inteligência artificial será enorme. Mas não resolverá tudo.
Seria impossível falar do mercado atual sem falar de inteligência artificial.
A IA já deixou a fase puramente experimental e começa a entrar nos processos empresariais.
O Gartner coloca plataformas nativas de IA, sistemas multiagentes, modelos especializados e segurança para IA entre as principais tendências estratégicas de tecnologia de 2026.
Mas existe um risco evidente:
transformar IA na próxima corrida empresarial por tecnologia sem propósito definido.
Já vimos isso acontecer antes.
Empresas compraram softwares porque “todo mundo precisava ter ERP”.
Migraram para cloud porque “servidor local ficou ultrapassado”.
Contrataram ferramentas de colaboração porque “o futuro seria remoto”.
Algumas tiveram excelentes resultados.
Outras simplesmente transferiram problemas de um lugar para outro.
Com inteligência artificial será igual.
As melhores iniciativas provavelmente não começarão perguntando:
“Onde podemos usar IA?”
Começarão perguntando:
“Onde estamos desperdiçando tempo, conhecimento ou capacidade de decisão?”
A tecnologia vem depois.
Quanto mais digital a empresa se torna, mais dependente da infraestrutura ela fica
Existe uma contradição interessante no mercado.
Quanto mais utilizamos cloud, SaaS, IA e aplicações digitais, menos enxergamos a infraestrutura.
Mas ficamos ainda mais dependentes dela.
Uma aplicação em nuvem depende de:
conectividade;
rede;
equipamentos;
identidade;
segurança;
dispositivos;
backup;
monitoramento.
Uma empresa pode ter um excelente sistema online e ficar parada porque seu link de internet caiu.
Pode ter dados em cloud e perder produtividade porque o Wi-Fi é inadequado.
Pode possuir inteligência artificial e continuar utilizando máquinas lentas.
Pode ter acesso remoto e abrir um novo risco de segurança.
O futuro digital não elimina infraestrutura.
Ele aumenta a necessidade de uma infraestrutura bem administrada.
Segurança passou a fazer parte da estratégia de negócio
Outro movimento importante é a mudança na percepção sobre cibersegurança.
Durante muito tempo, segurança foi tratada como um tema técnico.
Hoje, quando um incidente pode interromper vendas, atendimento, produção ou faturamento, ele passa imediatamente a ser um problema de negócio.
A Brasscom projeta aproximadamente R$ 104,6 bilhões em investimentos em segurança da informação no Brasil entre 2025 e 2028, com crescimento acumulado projetado de 43,8%.
O dado mostra que o tema ganhou importância econômica.
Mas acredito que o principal movimento será cultural.
A pergunta deixará de ser:
“Qual antivírus usamos?”
e será:
“Quanto tempo nossa empresa consegue operar se ocorrer um incidente?”
Essa é uma discussão completamente diferente.
Ela envolve:
segurança;
backup;
pessoas;
processos;
fornecedores;
contingência;
recuperação.
É quando tecnologia passa a conversar diretamente com gestão de riscos.
Serviços gerenciados tendem a ganhar relevância
Existe outro fenômeno que considero particularmente importante.
A complexidade tecnológica das empresas aumentou.
Mesmo organizações de médio porte podem hoje depender de:
cloud;
Microsoft 365 ou Google Workspace;
firewalls;
backup;
conectividade;
redes;
Wi-Fi;
aplicações;
endpoints;
câmeras;
automação;
telefonia;
inteligência artificial.
Esperar que uma pequena equipe interna domine profundamente todas essas áreas está se tornando cada vez menos realista.
A própria ABES aponta que software e serviços devem ganhar relevância no mercado brasileiro, impulsionados por cloud, inteligência artificial e serviços gerenciados.
Isso abre espaço para um modelo que acredito que crescerá bastante:
empresas mantendo a governança da tecnologia, mas utilizando especialistas externos para sustentar diferentes camadas do ambiente.
Não se trata apenas de terceirização.
Trata-se de acesso a capacidade especializada.
Comprar ou contratar capacidade?
Essa também será uma discussão cada vez mais presente.
Historicamente, empresas compravam:
servidores;
computadores;
softwares;
equipamentos de rede.
Hoje, muitos desses elementos podem ser consumidos como serviço.
A empresa pode contratar:
infraestrutura cloud;
software por assinatura;
equipamentos locados;
segurança gerenciada;
suporte recorrente;
monitoramento.
Isso muda a natureza da decisão.
Não existe uma resposta universal dizendo que CAPEX é melhor que OPEX ou vice-versa.
A pergunta correta é:
Qual modelo oferece mais previsibilidade, flexibilidade e eficiência para aquela operação?
Em determinados casos, comprar será a melhor alternativa.
Em outros, contratar capacidade será mais racional.
O importante é que essa decisão seja financeira e operacional ao mesmo tempo.
O mercado vai premiar integração
À medida que diferentes soluções entram nas empresas, surge outro problema:
fragmentação.
Um fornecedor cuida da rede.
Outro da internet.
Outro do software.
Outro da segurança.
Outro do backup.
Outro dos computadores.
Quando tudo funciona, parece adequado.
Quando ocorre um problema, surge a pergunta clássica:
“De quem é a responsabilidade?”
Esse talvez seja um dos maiores espaços de oportunidade para empresas de tecnologia nos próximos anos.
Não necessariamente vender mais produtos.
Mas conseguir integrar responsabilidades.
Na Glautec, esse conceito aparece justamente na combinação entre infraestrutura, cloud, segurança, backup, conectividade, locação e consultoria. O portfólio atual posiciona essas frentes como elementos complementares de uma mesma operação tecnológica.
A tendência que observo é clara:
o cliente quer menos complexidade de gestão, não mais fornecedores para administrar.
Tecnologia também está se aproximando cada vez mais do financeiro
Durante muito tempo, TI era vista basicamente como centro de custo.
Isso está mudando.
Quando tecnologia afeta:
receita;
margem;
produtividade;
experiência do cliente;
continuidade;
risco;
ela deixa de ser apenas uma decisão técnica.
Passa a competir pelo mesmo capital utilizado para:
expansão;
contratação;
marketing;
produção;
novos negócios.
Por isso, profissionais de tecnologia precisarão aprender cada vez mais sobre negócios.
E empresários precisarão compreender melhor tecnologia.
Esses dois mundos estão se aproximando rapidamente.
O profissional de TI do futuro precisará conversar com a direção
Também acredito que veremos uma mudança importante no perfil dos profissionais do setor.
Conhecimento técnico continuará essencial.
Mas não será suficiente.
O profissional mais valorizado será aquele capaz de explicar:
por que determinado risco importa;
qual investimento deve vir primeiro;
qual impacto uma indisponibilidade pode gerar;
qual tecnologia faz sentido para determinada empresa;
quando não vale a pena implantar determinada solução.
Isso exige algo além de certificações.
Exige visão de negócio.
Crescimento não significa comprar tudo
Um mercado que movimenta bilhões inevitavelmente gera pressão comercial.
Todos os dias surgem:
novos softwares;
novas plataformas;
novos serviços;
novas ferramentas de inteligência artificial;
novas soluções de segurança.
O papel de uma empresa de tecnologia responsável não deveria ser convencer clientes a comprar todas elas.
Deveria ser ajudá-los a separar:
necessidade de tendência.
Essa talvez seja uma das mudanças mais importantes que teremos pela frente.
Quanto maior o número de opções disponíveis, maior o valor de quem ajuda a escolher.
O próximo estágio da transformação digital será menos glamouroso — e provavelmente mais importante
Durante alguns anos, transformação digital foi associada a grandes projetos.
Hoje, acredito que boa parte do valor estará em decisões aparentemente menos impressionantes:
eliminar processos manuais;
melhorar uma rede instável;
testar o backup;
organizar acessos;
substituir equipamentos inadequados;
integrar sistemas;
revisar contratos;
documentar infraestrutura;
monitorar ambientes;
criar contingências.
Nenhuma dessas ações costuma aparecer em apresentações futuristas.
Mas são justamente elas que fazem uma empresa funcionar melhor.
Minha visão para os próximos anos
O mercado de tecnologia continuará crescendo.
IA continuará avançando.
Cloud continuará ganhando espaço.
Cibersegurança continuará recebendo investimentos.
Novos modelos de contratação continuarão aparecendo.
Mas acredito que o verdadeiro diferencial das empresas não estará em ter mais tecnologia.
Estará em possuir uma arquitetura tecnológica coerente com sua estratégia.
Isso significa saber:
o que realmente precisa ser modernizado;
o que pode permanecer como está;
onde existe risco;
onde existe desperdício;
quais investimentos têm prioridade;
quais resultados devem ser cobrados.
Em outras palavras:
A próxima fase da tecnologia empresarial não será definida por quem compra mais tecnologia. Será definida por quem toma melhores decisões com ela.
E é justamente nesse ponto que tecnologia deixa de ser departamento.
E passa a ser estratégia.
Deixa que a gente resolve
Glauber Lopes | Glautec Tecnologia





